
Jamile, ainda confusa, aceitou que Adric a levasse até a delegacia mais próxima, querendo ver-se livre do novo distúrbio rapidamente.
O rapaz costumava racionalmente decidir a sequência dos eventos em que se envolvia, e, pela primeira vez, o acaso tirou-lhe a vontade de intervir ou planejar. Havia algo familiar naquela cena surreal, como se fosse um daqueles sonhos sem nexo, cuja explicação revela-se no final. Ainda assim, precisava de uma metáfora que lhe fizesse sentido e riu-se ao associar tudo ao jogo de video-game que jogava com a menina todas as noites. Preciso passar para a próxima fase- pensou.
- Você tem certeza de que está bem?- disse, tentando firmar conversa com a moça.
- Tenho.- disse Jamile mordendo os dedos.
- Já está tremendo menos, não?
- Um pouco. Não me incomodo com isso. Sei que passa logo.
- Você pode usar o meu telefone se quiser...
Jamile soltou um riso tímido com um tom de escárnio quase imperceptível.
Adric pode ver que ela enxugava uma lágrima com a manga do casaco.
- Ei, o seu casaco está sujo de sangue. Não quer usar o meu?
- Porque?- perguntou ela olhando para os sapatos sujos de terra- Porque vc está fazendo tudo isso?
Adric teve o impulso de dar uma daquelas respostas padrão para se levar uma mulher para a cama, mas algo o impediu. Estava surpreso por não conseguir lançar mão de sua racionalidade na presença dela.
- Não sei, acho que estou curioso pra saber como isso vai terminar.
Sentiu seu rosto ferver. Não estava acostumado a falar a verdade sobre seus sentimentos.
Felizmente a delegacia estava a menos de uma quadra e ele poderia disfarçar seu desconcerto, procurando uma vaga para estacionar o carro.
Ao perceber onde estavam, Jamile agitou-se e com certa dificuldade, soltou o cinto de segurança. Avessa às gentilezas masculinas, tratou de sair do veículo antes que Adric pudesse tentar abrir a porta para ela.
Atravessou a rua na frente, aproveitando uma brecha no trânsito infernal da Vila Madalena. Sentia o olhar dele penetrando-lhe a nuca, sendo tomada por um arrepio aflitivo e um inegável contentamento. Olhou por cima do ombro e como o rapaz já estava próximo, concluiu que poderia prosseguir.
Parecia querer esconder sua inquietação e ao entrar no prédio, Jamile revelou-se familiarizada demais com o ambiente. Olhou no relógio da parede e soltou um suspiro de alívio. Perguntou ao policial:
- Moço, sabe me dizer quem é o delegado de plantão?
- É o dotô Cury.- disse ele
- Como assim? Ainda é cedo pra ele...- interrompeu o que ia dizer ao avistar no fundo da sala um homem alto e grisalho, de sobrancelhas grossas.
A voz grave e a passada firme fizeram com que a dor de cabeça golpeasse Jamile com força. Seu coração estava arrítmico e suas pernas começavam a perder a força.
Voltou-se para Adric, mais pálida do que o normal e com os olhos assustados suplicou:
- Me leva embora daqui! Por favor, me ajuda a sair daqui!
Ofegante, deixou que ele a segurasse, quase como se fosse erguê-la do chão. Ele tentava afastar qualquer pensamento lascivo, porém não podia ignorar que os “bicos petulantes” estavam espetando-lhe o tórax. Sua boca arfante parecia ainda mais convidativa e aguçou-lhe a imaginação.
- Me leva!
- Para onde?
- Pra qualquer lugar.
De volta no carro e ainda perturbado pelos apelos travessos de sua mente, Adric rapidamente deu a partida enquanto Jamile chorava e agitadamente roía as unhas, descascando o esmalte vermelho escuro.
- Me desculpe- disse ela- Desculpe por ter cruzado o seu caminho. Eu carrego o caos no bolso! Estrago tudo!
- Ora, não foi bem o meu caminho que vc cruzou, não é? – disse sorrindo, referindo-se ao furgão do acidente. Refreou o impulso de questionar a razão da fuga desesperada.
- Viu? Estraguei o dia de duas pessoas em menos de meia hora! Que merda!
Adric observou que o palavrão não combinava com sua delicadeza, mas achou interessante a forma como ela estava se abrindo.
- Preciso pagar o estrago que fiz no carro dele! Pior que nem sei como encontrar esse homem!
- O carro era de uma empresa de entregas que eu conheço. Posso te ajudar a achar o telefone.
Sem responder, Jamile pegou o celular e aflita apertou uma tecla de discagem rápida. Adric estranhou que a moça tivesse um Blackberry, pois a julgar pelas roupas que usava e por seu Celta modelo antigo, não parecia adinheirada.
-Alô, Ana? Ana, preciso de um favor teu!...Não...Ana, para de falar e me escuta! Eu preciso que você deixe aquela caixa de veludo na minha portaria...Hoje!...Eu sei, mas agora não posso conversar. Depois eu te ligo de volta...Tá...Tchau.
Adric já havia dado algumas voltas sem saber qual rumo tomar e perguntou:
- Quer que eu te deixe em casa?
- Não, não posso ir pra casa agora, me deixa em qualquer lugar e eu me viro...
- Olha, eu tenho que passar no meu apartamento pra deixar minha mala, você quer vir comigo? É entrar e sair. Depois eu te deixo onde você quiser.
- Olha, eu mal sei o seu nome, não acho que eu deva ir com você, além do mais eu...
Parou, interrompida pelo rapaz que disse:
- Adric, Jamile...Meu nome é Adric. Agora que você já sabe, o que me diz?
- Só se você tiver um café bem forte e uma dose de Jack!- riu, como se nada ruim tivesse ocorrido até ali e quase feliz por seu nome ter sido lembrado por ele.
11 comentários:
Ah ... os meandros não lineares da mente feminina ...
Esse puxa-puxa vai ficar divertido.
Esse turbilhão louco na cabeça de Jamile vai nos deixar tontas!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! :-)
No primeiro capítulo, discordei quando o Flávio disse que seu escrever seria parecido com o do Ernesto.Me enganei.É cedo pra dizer, mas na ficção é parecido mesmo.
VC como toda pessoa que tem talento pra coisa, apresenta marcas sólidas e peculiares no seu texto.Isso é estilo.
Como por exemplo; no meio da estória repetir expressões ( não apropriando-se delas, mas, dando-lhes um sentido a mais),e intertextualizando com alguns aspectos do cotidiano, revelando cumplicidade e salpicando leveza num texto denso.
Não seja modesta desnecessariamente:vc leva jeito.
O adubo não tem eficiência em solo estéril.
Muito bom....
Bjo
Flávio: acho que vc é o único homem que suspira diantes dos meandros...rsrsr
Anne: você ainda não viu nada! haha
Lú: Nossa, que legal. Se eu levo jeito pra escrever, vc certamente é uma observadora e tanto!
Beijos e saudades de todos
Dizer mais o quê? Tô adorando! "Não estava acostumado a falar a verdade sobre seus sentimentos." Que sacada, hein?
eu vou começar a ler os seus só quando os do Ernesto tb já estiverem publicados, pois cada vez que a estória vai ficando mais interessante, eu fico muito ansiosa pela próxima...
Ainda bem que ninguém a batizou de verdade de Jamile, pelo jeito... ufa!
Concordo com a Erlica, queria que todas as partes estivessem prontas, para matar minha curiosidade!
Olha o "lobo-mau" aparecendo...
Acho que esse lobo-mau tá tendo um revertério pós dieta:quer comer todo mundo, a chapéuzinho, a vovó, os 03 porquinhos(que se chamam Raquel, Katia e Adriana), o caçador, o Huguinho,Zezinho e Luizinho e tudo que é comestível.
E as vovós que ele gosta são daquele modelo Angela Vieira sabe?
Lobo esfomeado...
Malú.
Malú - hahahahahahaha
O curioso é que inventei a história do lobo lá no Arguta antes de ler os comentários aqui ...
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