
Parte 1- Loba Domesticada
Já era hora de sair e Jamile não tinha vontade de levantar da cama. O despertador berrava sem parar e costumeira dor de cabeça já dava sinais de alerta.
Pensou em ligar pro trabalho e dizer que estava doente, mas já havia feito isso na semana anterior.
- Maldita vértebra virada!- exclamou, referindo-se à dor provocada pelo problema de nascença na cervical.
Minutos mais tarde, estava esperando o elevador. A maquiagem da noite anterior denunciava que, mais uma vez, ela tinha passado dos próprios limites.
Escutou a vizinha do quinto andar ralhando com a filha pequena. Os gritos apressados subiam os dois andares da escada de serviço sem dificuldade.
Sentiu pena da menina, tão pequena e já cheia de “tens que fazer isso, tens que fazer aquilo”.
- Pra quê? Pra depois crescer e ficar que nem eu?- pensou.
Ouviu o elevador chegando e desejou fortemente que ele estivesse vazio. Cruzou os dedos e franziu a testa.
Checou se a manga da camisa estava cobrindo as cicatrizes do seu braço.
Colocou um chiclete na boca na tentativa de disfarçar o mau hálito causado pela bebedeira madrugada adentro.
A porta do elevador se abriu. Lá estava a vizinha do quinto andar com a filha, que ainda limpava as lágrimas dos olhinhos miúdos.
Jamile não pode evitar olhá-la com reprovação, não apenas pela gritaria matinal, mas por ter apanhado o elevador que subia, provando ainda mais a sua ansiedade.
Sabia em qual andar estava pelo cheiro único que os apartamentos exalavam. Sorriu ao passar pelo primeiro, lembrando-se do seu amorzinho de infância, com quem trocou seu primeiro beijo.
Finalmente chegaram do segundo subsolo e o ar da garagem fez com que Jamile mascasse o chiclete com mais força. Sentia uma mistura de gosto e aversão àquele odor.
A garagem do prédio era um lugar especial, pois ao invés de paredes fechadas, tinha um guarda corpo que permitia ao vento circular livremente e a vista não poderia ser melhor.
O dia estava cinzento, mas ao entrar no carro, Jamile reparou nas árvores balançando. Gostava de ligar o rádio e coordenar o movimento das folhas com o ritmo da canção que tocava. Sua estação preferida para este momento era a de música clássica.
Sentiu-se rídicula por ter essa estação programada na memória do rádio; era como se quisesse “dar uma de” culta. Jamile odiava perceber-se tentando ser o que no fundo sabia que não era.
Quando passou pelo trilho da porta da garagem, com a boca imitou o barulho que as rodas faziam ao tocar o metal. Primeiro as da frente e depois as de trás.
Era um ritual, sem o qual não poderia começar seu dia.
No primeiro farol, parou atrás de uma SUV com os vidros escuros e sentiu seu estômago contrair-se pela impossibilidade de ver o que havia mais a frente.
A posição dos braços no volante revelava as cicatrizes e lhe trazia a lembrança pontiaguda daquele noite.
-Aargh! – disse sacudindo a cabeça.
Naquela época, Jamile desejava dormir e nunca mais acordar.
Ao deitar-se na cama, tinha vontade de bater a testa na parede até que sua cabeça se quebrasse como um ovo. Tinha a sensação de que se a gema saísse, ela teria paz finalmente.
Numa dessas noites, abriu uma garrafa de vinho ruim e começou a beber no gargalo. Não que ela não tivesse taças, mas gostava da coisa mais tosca .
Acendeu apenas a luz do corredor e sentou-se na frente do espelho do armário.
Tirou toda a roupa e começou a olhar seus contornos. Gostava do que via. Tinha um cintura fina e um quadril largo. Encheu a boca de vinho e deixou escorrer um pouco pelo pescoço, como se fosse sangue.
Jamile tinha fascinação por estórias de vampiros desde criança. Achava linda a imagem do líquido vermelho em contraste com sua pele branca.
A pouca iluminação mais a embriaguez provocavam distorções na imagem que via no espelho.
Já anestesiada, apanhou um estilete, quebrou a ponta cega e começou a arranhar o braço esquerdo. O sangue custava a sair e ela forçou a lâmina mais fundo na carne. A dor não foi maior que o contentamento de ver o vermelho profundo jorrando para fora da pele.
- “Só sentirei que estou viva, quando estiver morrendo” – concluiu engantando a primeira marcha.
16 comentários:
muitos comentários:
1) ráaaaaaaaaa! tem gente que andou combinando coisas por e-mail? safadinhos!
2) gata! eu conheço essa garagem e esse ritual, mas penso que faz tempo que não desejo não encontrar ninguém no elevador... pra mim:
w h a t e v e r
3) amei! vc se despiu e não se vestiu mais! reconheço muito bem a cabeça de onde saiu essa história!
4) jamile?????????????????
5) ai! que bom que sua rua é calma e vc não tem mais que sair na frente do ônibus pela saída da R. Toneleiros...
6) <3
WEll, well, well, temos mais uma contista afiada no pedaço... Estou curiosa pra ver como seguirá... Congrats!!
Gata, não acaba com o clima de mistério, pô!
rsrsrs
Beijo
<3
Jú:
Essa personagem tem força.
Concreta.
Tô quase que apostando(apesar de ser muito cedo pra dizer) que é o que é chamado literariamente de "personagem redonda".
Vc leva jeito.
Perceptível ,logo no primeiro capítulo, como o estilo vai se firmando no decorrer dos parágrafos.
Promete...
Bjo
Lú.
Isso vai dar muito certo ... O estilo da Jú é parecidíssimo com o do Ernesto.
E, como a Lú disse, a personagem é redondinha (pelo menos no quadril).
Que delícia acompanhar sem ter a responsabilidade de escrever ...
Vou seguir o conselho da Marta !
Nao vá fazer isso em Congonhas à luz do dia, na frente de todo mundo Ludovico.
Ô Flávio, não vai escostando o corpitcho não. Vou precisar de consultoria nessa.
E você pensou que Juliana Machado fosse quem? Pseudônimo do Cony?
oops... o segundo parágrafo do meu comentário está fora de lugar. Refere-se à discussão do post anterior...
Vamos ver no que dá, né???
Ador l ei!!! ...nem sei mais o que dizer!
O "estômago contrair-se pela impossibilidade de ver o que havia mais a frente" por causa desses carros filmados me é tão familiar! ...e a gente pensa que as nossas "loucuras" são originais e exclusivas, né?
O próximo é no Assertiva?
...nem avisaram que já estava postado, né?
É!rica, entregando assim, de bandeja?!
Jú,
Demorei mas cheguei!!
Ótimo post!!! Sigo na espera do próximo... Adoro histórias com personagens únicas!!
Beijos
ai que eu não aguento esperar próximo capítulo de novela!
já lançaram o DVD pirata?
E no IUTUBE? não?
To esperando o Ernesto ernestar...
;-I
Brilhante argumento e bela construção! Raramente se vê personagem tão rico. Coisa de mestre, de veterano. Atraente como nunca, deixa a gente ansioso pela sequência. Pela qualidade das tuas postagens, era mesmo o que eu esperava. Parabéns!
Como você é uma boa conhecedora de histórias, nada me espanta que consegue construir uma tão bem. O jeito com que você escreve e descreve os acontecimentos, demonstra bem sua característica incrível, de envolver as pessoas usando todos os sentidos desta - nos envolvemos na história atráves de sua descrição do cheiro, da imagem, do som... Amei.
Estou aguradando as próximas partes desta história.
juro que não tinha visto a foto da lobada 1ªvez! tamanha foi a atenção que o textou mobilizou!
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