sexta-feira, outubro 05, 2007

Anfibia- Parte 5

Parte 1- Loba domesticada
Parte 2- A caça
Parte 3- Caixa de veludo
Parte 4- Caleidoscópio

Alabastro

- Quanto te devo?

- É trinta e dois...

- Tem troco? – perguntou Jamile, mostrando uma nota de cem reais.

- Ei, moça...Tá difícil, é que hoje o movimento não foi bom.

- Cobre cinqüenta e fique com o resto.

O taxista sorriu, um tanto surpreso com a generosidade da moça.

Jamile estava ansiosa para apanhar a caixa na portaria e mal deu ouvidos ao falatório do zelador, que tentava ser simpático.

O veludo vermelho carregava consigo uma imagem dolorosamente nostálgica, pois era sobra do tecido usado na confecção do vestido preferido de sua mãe.

O vestido tinha sido encomendado para a sua festa de trinta anos e Jamile ainda lembrava os dizeres do convite:

“Samira Obeid Cury convida você e sua família para um jantar de gala em comemoração ao seu aniversário

Samira era uma mulher solitária, aprisionada pelas imposições ciumentas do marido quatorze anos mais velho. Contudo, pelo menos uma vez por ano, a casa se via enfeitada e opulenta. Todas as luzes eram acesas e a prataria era posta à mesa, ostentando parte da fortuna da família.

Havia muita gente que Jamile mal conhecia. Os homens eram altíssimos, com seus narizes vultuosos e quase sempre calvos. As mulheres mais velhas espremiam-se nos muitos sofás da casa enquanto as mais jovens dançavam e gritavam ao som dos derbakkis. As crianças corriam de um lado para o outro, mas Jamile ficava escondida embaixo da escada de mármore e nem mesmo os apelos de Ana faziam–na sair pra brincar.

- Vá, Branquinha, vá com os outros. Olha seu primo Amin! Depois só vai ver o ano que vem...-argumentava Ana.

Era justamente por isso que Jamile se escondia. Numa das festas anteriores, tinha se esbaldado de brincar com Amin e seu irmão mais velho. A esperteza dos meninos era fascinante e despertou em Jamile a vontade de tê-los sempre por perto, mas por mais que pedisse isso à mãe a resposta era sempre a mesma.

-Não, ainy, não pode! Ele não permite visitas, você sabe. Espera até o ano que vem, no aniversario da omy! Eu prometo que convido os dois.

Um ano naquela época era um tempo incomensurável e aos poucos, Jamile deixou que o vazio tomasse conta da saudade que tinha dos primos.

O elevador novamente interrompeu as lembranças da moça e por uma graça do destino estava vazio desta vez.

Revirou a bolsa a procura das chaves e deixou cair o papel onde Adric havia anotado o telefone da empresa de entregas. Sorriu ao recordar a imagem do rapaz empenhado em ajudá-la com a confusão; há tempos não ficava tão próxima de um homem como tinha estado durante as últimas horas.

Jamile estava intrigada com sua atitude cerimoniosa, com o cuidado em manter uma distância mesmo estando perto, com a delicadeza do falar apesar da concupiscência do olhar.

Sentiu como se ambos estivessem em um lugar que somente eles conheciam. Onde as regras não precisavam ser ditas para serem respeitadas. Como se somente ele pudesse ter a noção do que isso significava para ela e por isso não tentou tocá-la, nem lhe fez perguntas demais.

Lembrou do olhar profundamente triste ao falar de Elisabeta e de certa forma, orgulhou-se por também não ter feito perguntas demais.

Abriu a porta de casa, soltou a bolsa e o casado respingado de sangue e jogou-se no sofá com a caixa de veludo na mão.

-Shukrán, omy! Aná uhbbuhá!- disse como que agradecendo à mãe o presente recebido – Obrigada, omy! Eu amei!

Dentro da caixa estava a chave que resolveria grande parte dos problemas iniciados naquela manhã.

Já estava entregue a um cansaço hipnótico, mas sabia que ia acordar no meio da noite e podia imaginar qual o grau da tortura que sua mente iria impor ao seu corpo madrugada afora.

-Velho desgraçado!- gritou, esmurrando a mesa de centro.

A cena ainda era clara como se estivesse acontecendo ali, diante de seus olhos.

Sua mãe estendida no chão. O líquido vermelho avançava para as ranhuras do piso como se o vestido de veludo estivesse desbotando e tingindo o assoalho. A pele estava mais branca do que nunca, assemelhando-se a uma antiga estátua de alabastro. Os olhos fechados, a boca entreaberta. As mãos imóveis; um dos pés ainda calçava o sapato de salto fino. Jamile se aproximou. Viu o punhal cravado no peito. Tentou puxar. Nada.

-Omy? Omy?!

A mãe não reagia. Ela puxou o punhal com mais força até finalmente arrancá-lo. A mãe continuava inerte.

Olhou para trás e viu que ele tentava se esconder atrás da cortina, denunciando sua culpa como qualquer moleque débil faria.

O velho parecia temer o olhar fixo de Jamile e num desatino, correu com as mãos em direção ao seu pescoço infantil.

-Pare, senhor! Pare! Ela é só uma criança! Nem vai lembrar do que aconteceu! – suplicou Ana, escondendo a menina atrás de seu corpanzil.

Com seis anos de idade, Jamile sentiu a fragilidade da vida e desejou ter morrido no lugar da mãe.

12 comentários:

Udi disse...

uh!
Vi cada cena! A casa, a sala, a festa, as pessoas, tudo, tudo!
Maravilhoso! Parabéns!
(devia ter pedido um autógrafo no guardanapo!)

MP disse...

Essa história está cada vez mais interessante, os personagens ficando mais complexos... amei.
Adoro que você é uma escritora!
Fofiiiiiiiiiiiinha

Érica Martinez disse...

elaboradíssimo, muito bem cuidado, intrigante, chique...(amei o vestido de veludo "rojo", pude imaginá-lo perfeitamente!)
Superou-se, gata! Isso aqui tá cada vez melhor!!!!!!!!!
uf uf uf uf uf

Érica Martinez disse...

esqueci de falar uma coisa:
"Jamile deixou que o vazio tomasse conta da saudade que tinha dos primos"
LINDO!

Sentiu como se ambos estivessem em um lugar que somente eles conheciam. Onde as regras não precisavam ser ditas para serem respeitadas. Como se somente ele pudesse ter a noção do que isso significava para ela e por isso não tentou tocá-la, nem lhe fez perguntas demais.

ah, se pudesse ser sempre assim...

muá! :-*

Walmir Lima disse...

Não me enganei.
Vi que vinha coisa muito boa desde o princípio.
Maravilhosa peça literária.
Até saiu 'd'alhures' uma bela "concupiscência", que eu já não via desd'antontes. Um verdadeiro apetite aberto e fluente poro-afora. Parabéns!

Anônimo disse...

Instigante!
Aguardo ansiosa o que vem por aí.

Menina talentosa!

Ju disse...

Para mim é uma honra ser lida por todos vocês!
HONRA!

Jorge Lemos disse...

No melhor estilo descritivo.

Flavio Ferrari disse...

Ju: cuidado que vicia ...

Anne M. Moor disse...

Ju: Que maravilha! E não precisa ter cuidado não... deixa viciar que nós agradecemos!! Adorei...

Anne M. Moor disse...

E me deu uma raiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiva!!!!

Anne M. Moor disse...

... do velho...