O Toni é meu canario.
Nasceu cativo, filho de um casalzinho que pertencia à bisavó do Enrico.
Está em casa desde 2003 e todos os dias em que eu olho pra ele, me parte o coração.
Hoje de manhã eu decidi soltá-lo. Pensei em pegar o corpinho na mão e reproduzir uma das clássicas cenas: levá-lo ao ar e soltar (a câmera focaliza o meu sorriso e depois a silhueta livre contra a luz do sol).
Não foi bem assim! Pensei que se eu fizesse isso, ele poderia se esborrachar no chão, ou ainda morrer de ataque cardíaco (tadinho). Além do que, ouvi dizer que se vc deixa a gaiola aberta ele consegue voltar pra comer.
Pensei que se a decisão de sair fosse dele, ele poderia calcular o caminho de volta caso tivesse fome ou sede.
Abri a portinha...
Fiquei olhando...
Vi o seu peitinho amarelo- ele estava tentando tomar banho no bebedor.
Eu estava comendo uma bolacha e coloquei perto dele. Ele veio comer na minha mão, abrindo as asinhas como o filhote faz com a mãe. Quase chorei!
Quando eu percebi, eu estava me despedindo dele, me preparando pra não vê-lo nunca mais.
Me deu medo de surtar de saudade, de me arrepender da decisão de deixá-lo ir embora.
Pensei em desistir, mas mantive a portinha aberta.
Tentei me convencer que seria melhor que ele morresse livre do que passasse a vida num cubículo sem nem conhecer a sensação de voar.
"Um passarinho que nunca voôu"- pensei- e essa frase resumiu tantas coisas que poderiam ser ditas por horas.
Me afastei e me escondi.
Continuei olhando e ele não saiu.
No fundo, eu queria que ele não saisse, queria que ele ficasse lá por escolha.
Mas ele não tem escolha, porque não sabe que existe um outro mundo além da gaiola. Não pode escolher porque não conhece suas opções. Não sabe nem que existem opções para ele.
Eu tinha que sair.
Olhei pra gaiola e me vi em um daqueles momentos infinitos: deixo aberta e terei uma linda história pra contar por mundo? Juro que me senti tentada a fazê-lo, mas no fim, escutei o motor do carro ligado, pronto pra partir.
Baixei a portinha da gaiola e fui embora.
E essa história não ficou tão interessante quanto poderia.
:-(
13 comentários:
Sabe, Ju, às vezes me sinto como esse passarinho, presa por opção à gaiola que eu mesma criei pra mim (meus paradigmas, meus princípios, minha cultura, minha criação,enfim, minhas limitações). Como eu queria ter coragem de take de risk and fly. Mas às vezes tenho a sensação de que nem sei direito o que ou quem exatamente me prende.
Jú, mas vc não tem aí um gatinho(de 04 patas)?
Ele ia comer o pobre do canário...
Quanto a não conhecer outras opções,é menos grave (embora muito triste)quando se é impedido de saber como é o caso do passarinho.
Triste mesmo(e vão), é poder e não querer perceber outras opções.
Mais dia, menos dia, todo mundo precisa delas...
Bjo
Geeeeeeeez! Estava eu ontem na Cámilas falando justamente sobre passarinhos e gaiolas e pessoas que não conhecem outro mundo...
Ela me contou uma história de uma menina que vive (VIVE MESMO) lá no H.U. que teve paralisia flácida (ou algo assim); ela não se mexe, tem poucas expressões faciais e não fala. Mas pensa. Ficamos imaginando o que pensaria essa menina: "ah, coitada, ela sofre por não poder jogar bola e não brincar com outras crianças..."
Acontece que ela NUNCA viu outras crianças! Ela não sabe o que é brincar de bola, ela não sabe que existe um mundo além daquele do hospital, pq ela tb nunca assistiu TV... Pense...
Ficamos imaginando colocar um dispositivo no cérebro dela para ter noção das suas sensações e se ela sofria ou não, mas ainda assim, ao interpretarmos suas sensações, estaríamos sendo tendenciosos, pq NÓS sabemos que há um mundo lá fora... E aí chegamos na seguinte frase do Raul: (toca Raul!)
"NINGUÉM NESSE MUNDO É FELIZ TENDO AMADO UMA VEZ"
Portanto, se o Tony nunca voou, não sente falta disso, meu bem, sinta-se em paz!
AMO.
Sei bem o que é isso, passei isso com o Jack também. Ficava olhando para ele e achando ele a coisa mais fofa do mundo e depois me sentia muito CULPADA por ter escolhido colocá-lo numa gaiola...
Mas aí eu lembro que os canários infelizmente vivem em cativeiro há tantos e tantos anos e o que é pior, eles não são mais encontrados em natureza.
Então, soltá-lo para que? Para ele morrer se sentindo judiado? Afinal ele não vai conhecer uma passarinha, ter filhotes e ser feliz para sempre.
A única pessoa que se libertaria seria você de não ter mais que se sentir culpada...
...é horrível. Mas a única coisa que você pode fazer agora, é cuidar bem dele.
Babi: a gente nunca está pronto pra correr o risco até que corre...Tente, porque vc tem TUDO pra se dar muito bem!!!
Lú: tenho sim um gatinho e pode acreditar que o fato de ele estar "around"pesou na hora de eu fechar a portinha da gaiola
Gata: ninguém sente falta do que não conhece, né? Sad, but true!
Miss: Verdade! Vou cuidar muito, muito dele...
A Bia tem uma calopsita. Uma não: duas. Elas saem da gaiola, andam pelo chão, brincam com as cachorrinhas, vê se pode.
Fim de semana coloquei uma delas na mão ("dá o pé, louro..."). Ela subiu pela camisa até o meu ombro e ali ficou enquanto eu limpava a piscina, trabalhava no computador.
Bicava minha orelha, arrulhava no meu ouvido. Fez cocô nimim, suprema intimidade.
O melhor da sensação é: esse bicho tem o mundo inteiro pra voar e fica aqui, gostando da minha companhia, junto da gente como a dizer que ali é seu lugar.
Talvez, só talvez, um pássaro possa trocar o céu inteiro por amor e companhia e ser feliz.
Deus do céu!
Do jeito que eu estou descompensada, quase chorei com o texto do Ernesto...
Ernesto, vc é fofo!
;-)
Uma história é interessante pelo impacto que causa em quem lê. E eu tô aqui, pensando até em postar algo no Prozac, com as lembranças que me despertaram. Mas essa eu vou contar aqui.
Enquanto lia o teu post, começou a “tocar” em minha cabeça: “blackbird singing in the dead of night...”
E eu me lembrei do quanto chorei quando assisti ao Gabriel – meu filho mais velho – fazendo uma de suas primeiras apresentações de violão (uns 13 anos de idade) e cantando “take this sucken wings and learn to fly... blackbird fly...”.
E você, sabiamente, já se prepara para abrir a porta da gaiola para outros vôos de outros pássaros!
...bem, e o Gabriel ainda tá aqui, pertinho!
...ah! (20 horas depois) hoje ele tem 26 anos e conseguiu me descobrir na web fazendo um comentário no Assertiva. Magina se não ficou amigo do Ernesto?!
Você falou que a história não ficou tão interessante quanto poderia.
Pois eu entendi perfeitamente a simbologia da profunda história por trás da história.
"Precisamos, um dia, abrir a 'portinha' e soltar o 'canário' que está preso dentro de nós."
Nem que seja pra perceber que não quer voar.
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