
Jamile chegou antes do horário combinado. Estivera na rua durante toda a tarde, resolvendo pendências do dia anterior. Enquanto procurava uma mesa, repetia na mente o tamborilar de dedos da chefe descontrolada. “Eu preciso de comprometimento, Jamile, assim não dá!”
Contraiu a face, tentando achar uma forma de convencer a tirana de que mudar as palavras não a fazia parecer mais esperta.
Quando o garçom se aproximou, ela ainda tinha o semblante franzido e sentiu-se fragilizada pela distração aparente.
- Está aguardando alguém, senhorita?
- Ah, sim, quero uma mesa para dois. Lá fora, pode ser? – intencionalmente assegurando-se de uma fácil rota de fuga.
- Pois não, por aqui.
- Pode me trazer uma Coca, por favor? Com gelo e limão espremido.
- Pois não.
Jamile lia o cardápio sem prestar muita atenção. A lista de opções parecia mais uma figura em três dimensões, mais uma perturbação em sua mente.
Sentiu uma mão em seu ombro e virou-se assustada, belicosa como sempre.
- Oi! Assustei você?- perguntou Adric.
- Oi, sim...Quer dizer, não! Eu estava pensando longe...
- Está com uma cara boa! Já pediu algo para beber?
- Sim, mas não pedi para você. Acho cafona e pretensioso pedir.
Adric riu-se; no fundo concordava com Jamile. Era mais um indício de que ela não era uma das “presas” com que estava acostumado. Talvez ela não fosse uma presa de fato, mas uma caçadora.
- Jamile, eu fui até a delegacia hoje...
- Ora, mas já está tudo resolvido. Eu já mandei depositar o dinheiro pra consertar o furgão! E o motorista nem se machucou e... Você viu o nome dele? Estranho, eu nunca...
- Eu não fui por isso...- interrompeu Adric
- Como assim? Quem atendeu você? De quem...? Como você...?
- Fui por você, Jamile...Fui pela sua agitação, pelo nervosismo, pelo desespero...
- O que você tem com isso?! Quem atendeu você?- disse quase gritando.
- O delegado, claro!
- Qual delegado, Adric?!QUAL?!- questionou com a voz trêmula.
A pergunta viajou pelo ambiente semi-vazio devido ao horário, deixando o ar rarefeito por alguns instantes. Misturou-se ao murmúrio dos presentes e permaneceu sem resposta, perdendo a força para o silêncio de ambos.
Adric estava hipnotizado com a intensidade daquele olhar. Como era possível? Há um minuto ela sorria leve; agora fulminava-o com os olhos tensos, mordendo os lábios vermelhos. Um arrepio na nuca, um espasmo nas pernas, um jorro de saliva na boca. Adric projetou-se em direção a Jamile, tocou seu braço com as pontas dos dedos e sentiu a penugem macia que lhe cobria a pele. Deixou que seus olhos perdessem o foco, no brilho da saliva revelada pela respiração ofegante da moça.
Jamile fechou os punhos, como que preparando um golpe. Pensou em sair correndo, mas o olhar de Adric a petrificava. Estava cativa, indefesa. Um arrepio, uma surdez momentânea, uma fogueira no ventre...
A distância entre os corpos ficava menor a cada instante. Adric movia-se lenta e cuidadosamente, para não rasgar a teia que o conduzia até ela. Sentia seu perfume enquanto deslizava a mão por seu braço macio e branco como mármore.
Jamile estava entregue, talvez pelo excesso de confiança do rapaz, talvez pela carência de ser tocada por um homem novamente. Sentia-se evaporar em desejo e ainda que quisesse não podia lutar contra aquilo.
A mão esquerda de Adric escalou o ombro de Jamile, pressionando-lhe levemente a nuca, dominando-a de forma definitiva e trazendo-a para si.
Havia tanta distância naquele centímetro que os separava, tanta coisa não dita, tantas estórias desconhecidas.
Ambos se olhando nos olhos e já viciados no que nem foi sequer consumido ou consumado.
Adric apertou os dedos, agarrando-se ao cabelo fino e perfumado de Jamile. Parecia querer segurá-la naquela posição para sempre, emoldurar aquele momento no tempo.
Jamile, vencida pela intensidade de sua própria rebeldia, tentava entender-se através do reflexo nos olhos dele, imaginando o gosto da boca, a textura da língua e o encaixe dos corpos.
Seus punhos, agora abertos e quase receptivos, hesitavam em fazer qualquer movimento que catalisasse a reação em cadeia. Ao mesmo tempo, sentia o coração extrapolando os limites do peito e pensou no sangue: “só me sentirei viva, quando estiver morrendo”.
Contraiu a face, tentando achar uma forma de convencer a tirana de que mudar as palavras não a fazia parecer mais esperta.
Quando o garçom se aproximou, ela ainda tinha o semblante franzido e sentiu-se fragilizada pela distração aparente.
- Está aguardando alguém, senhorita?
- Ah, sim, quero uma mesa para dois. Lá fora, pode ser? – intencionalmente assegurando-se de uma fácil rota de fuga.
- Pois não, por aqui.
- Pode me trazer uma Coca, por favor? Com gelo e limão espremido.
- Pois não.
Jamile lia o cardápio sem prestar muita atenção. A lista de opções parecia mais uma figura em três dimensões, mais uma perturbação em sua mente.
Sentiu uma mão em seu ombro e virou-se assustada, belicosa como sempre.
- Oi! Assustei você?- perguntou Adric.
- Oi, sim...Quer dizer, não! Eu estava pensando longe...
- Está com uma cara boa! Já pediu algo para beber?
- Sim, mas não pedi para você. Acho cafona e pretensioso pedir.
Adric riu-se; no fundo concordava com Jamile. Era mais um indício de que ela não era uma das “presas” com que estava acostumado. Talvez ela não fosse uma presa de fato, mas uma caçadora.
- Jamile, eu fui até a delegacia hoje...
- Ora, mas já está tudo resolvido. Eu já mandei depositar o dinheiro pra consertar o furgão! E o motorista nem se machucou e... Você viu o nome dele? Estranho, eu nunca...
- Eu não fui por isso...- interrompeu Adric
- Como assim? Quem atendeu você? De quem...? Como você...?
- Fui por você, Jamile...Fui pela sua agitação, pelo nervosismo, pelo desespero...
- O que você tem com isso?! Quem atendeu você?- disse quase gritando.
- O delegado, claro!
- Qual delegado, Adric?!QUAL?!- questionou com a voz trêmula.
A pergunta viajou pelo ambiente semi-vazio devido ao horário, deixando o ar rarefeito por alguns instantes. Misturou-se ao murmúrio dos presentes e permaneceu sem resposta, perdendo a força para o silêncio de ambos.
Adric estava hipnotizado com a intensidade daquele olhar. Como era possível? Há um minuto ela sorria leve; agora fulminava-o com os olhos tensos, mordendo os lábios vermelhos. Um arrepio na nuca, um espasmo nas pernas, um jorro de saliva na boca. Adric projetou-se em direção a Jamile, tocou seu braço com as pontas dos dedos e sentiu a penugem macia que lhe cobria a pele. Deixou que seus olhos perdessem o foco, no brilho da saliva revelada pela respiração ofegante da moça.
Jamile fechou os punhos, como que preparando um golpe. Pensou em sair correndo, mas o olhar de Adric a petrificava. Estava cativa, indefesa. Um arrepio, uma surdez momentânea, uma fogueira no ventre...
A distância entre os corpos ficava menor a cada instante. Adric movia-se lenta e cuidadosamente, para não rasgar a teia que o conduzia até ela. Sentia seu perfume enquanto deslizava a mão por seu braço macio e branco como mármore.
Jamile estava entregue, talvez pelo excesso de confiança do rapaz, talvez pela carência de ser tocada por um homem novamente. Sentia-se evaporar em desejo e ainda que quisesse não podia lutar contra aquilo.
A mão esquerda de Adric escalou o ombro de Jamile, pressionando-lhe levemente a nuca, dominando-a de forma definitiva e trazendo-a para si.
Havia tanta distância naquele centímetro que os separava, tanta coisa não dita, tantas estórias desconhecidas.
Ambos se olhando nos olhos e já viciados no que nem foi sequer consumido ou consumado.
Adric apertou os dedos, agarrando-se ao cabelo fino e perfumado de Jamile. Parecia querer segurá-la naquela posição para sempre, emoldurar aquele momento no tempo.
Jamile, vencida pela intensidade de sua própria rebeldia, tentava entender-se através do reflexo nos olhos dele, imaginando o gosto da boca, a textura da língua e o encaixe dos corpos.
Seus punhos, agora abertos e quase receptivos, hesitavam em fazer qualquer movimento que catalisasse a reação em cadeia. Ao mesmo tempo, sentia o coração extrapolando os limites do peito e pensou no sangue: “só me sentirei viva, quando estiver morrendo”.
8 comentários:
Vivaaaa! Obrigada, Ju!
Dá prá comentar mais?! A própria postagem (ação e conteúdo) já fala por si só. Fala?! Grita! ...melodicamente.
E lá vou eu de volta à velha Olivetti Lettera 22.
Booommmm!
Obrigado por ter voltado.
Considerando a fase pela qual estou passando, penso que entendo um pouco o que você passou quando estava afastada, sem escrever.
Fico feliz que tenha voltado, e 'com tudo', nos presenteando esse texto maravilhoso.
Um beijo
Udinha, parte disso é responsabilidade sua, sabia? Me inspirando com sua borboletice! BEIJOS!!!
Ernesto: sabia que quando eu era criança, GANHEI uma Olivetti de presente? Daquelas que virava uma malinha verde. Essa é a Lettera?
Walmir: querido, que saudades! Saudades da tua companhia que não "rasga as teias" que o conduzem.Rs
Saiba que minha volta deve-se em MUINTO (o N é pra enfatizar)a você. Espero que a sua fase polêmica te traga a sabedoria e a paz que a minha me trouxe.
Tudo passa, parece bobo, mas é assim que é!
:-)
PS:O meu relógio não está desconfigurado. Estou dominada por uma insônia de gripe, misturada com adrenalina de telhado sendo refeito (literalmente)
Ótimo texto e ótima retomada.
É bom ver isso acontecer!
Beijão Jú.
Que bom que você voltou inspirada!
Fico muito feliz de ver você usando toda a sua energia para as coisas que importam, como botar sua criatividade para fora!
Milhões de beijos!
Estou visitando os habitantes da aldeia que ainda não conheço. Agora estou consigo e me sinto muito bem! V. está viva e bem viva, para bem de todos nós!
Abraço.
António
António, seja muito bem-vindo! Entre e fique a vontade! Retribuirei sua visita!
Beijão
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